Por que você deveria ler mais livros impressos
Um dos aspectos pouco conhecidos das tecnologias, principalmente as intelectuais, é o seu protagonismo em produzir efeitos, bons ou ruins, diretamente nas mentes de seus usuários, e isso independentemente de seus conteúdos. Colocando de outra forma, as tecnologias intelectuais são capazes de nos afetar positiva ou negativamente, não importando se os conteúdos que veiculam são bons ou nefastos.
As telas, por exemplo, são acusadas de causarem uma série de problemas nas crianças, como atraso na fala, atrofia do córtex cerebral, TDAH, ansiedade, falta de empatia e por aí vai. Os adultos também percebem que a internet está minando sua capacidade de concentração. Se você digitar no campo de busca do YouTube algo como "perigo das telas", irá encontrar um monte de vídeos tratando desse assunto. Mas, você já parou para se perguntar por que as telas fazem mal, ou por que a leitura de livros impressos faz bem?
O meio é a mensagem
Para responder a essa pergunta, vamos ter que apelar para uma declaração feita em 1964 pelo teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan, no livro Understanding Media: the Extensions of Man, traduzido no Brasil como Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. Segundo ele, "o meio é a mensagem", e isso explica os efeitos positivos ou negativos dos meios.
Com a expressão "o meio é a mensagem", McLuhan quer dizer que os meios produzem efeitos, bons ou ruins, em seus usuários e na sociedade. Tais efeitos não têm nada a ver com os conteúdos veiculados pelos meios, e sim com as suas características físicas, com a sua lógica interna de funcionamento.
Esses efeitos podem ser intencionais ou podem ser simples efeitos colaterais, não previstos, dos meios. Por exemplo, sabe-se que alguns dos efeitos negativos das redes sociais, como o vício e a falta de atenção, são engendrados por esforços das equipes de psicologia e de engenharia das big tech, que lucram quanto mais tempo passamos online.
Já os efeitos positivos dos livros impressos são não- intencionais. Quem criou o livro o fez para guardar e preservar informações, e não para promover a memória, linguagem e atenção dos leitores. Esses são efeitos não previstos da tecnologia - e muito bons, por sinal.
Os efeitos positivos dos livros impressos
Como já foi dito, os efeitos dos meios têm a ver com as suas características físicas, com a sua lógica interna de funcionamento. Agora vejamos quais são as características físicas dos livros impressos e os efeitos que elas provocam nos leitores:
1. Os livros impressos são uma unidade: isso significa que eles não trazem nada além do conteúdo circunscrito às suas páginas. Isso nos convida a prestar atenção e a ler do início ao fim, e fomenta em nós a capacidade de prestar atenção;
2. Os livros impressos são feitos de palavras bem escritas: em geral, os livros impressos passam por uma revisão cuidadosa, trazendo uma linguagem correta, bem escrita, com as sutilezas e profundidades da argumentação dos autores. Isso desenvolve a nossa linguagem;
3. Os livros impressos carregam conhecimento dos autores: os livros impressos trazem o conhecimento organizado dos autores, com um raciocínio com começo, meio e fim. Ao prestar atenção e ao ler do início ao fim, os leitores tomam para si esse conhecimento e, com isso, se tornam mais cultos.
Assim, ao ler livros impressos nós nos tornamos mais atentos, eloquentes e cultos. Nós já nascemos assim? Não! Os livros impressos é que nos tornaram assim.
Mas, se o meio é a mensagem, ele só é capaz de transmitir suas mensagens ou produzir seus efeitos por conta de uma característica do cérebro humano conhecida como neuroplasticidade.
A plasticidade cerebral
A neuroplasticidade significa que o cérebro é capaz de se adaptar às demandas ambientais, transformando-as em hábitos. Assim, ao utilizarmos com frequência uma tecnologia como os livros impressos, que fomenta em nós a memória, a linguagem e o saber, isso significa que nos tornamos atentos, eloquentes e cultos no nível das sinapses!
Os efeitos negativos da internet
Ao contrário dos livros impressos, a internet e os dispositivos por meio dos quais ela pode ser acessada produzem como efeito o atrofiamento da memória, da linguagem e do conhecimento. As características físicas desses meios que estão por trás desses efeitos negativos são:
a) A internet e os dispositivos eletrônicos permitem a multitarefa: a internet e os celulares e notebooks permitem que façamos várias coisas ao mesmo tempo: abrir mais de uma janela, ler textos, ver vídeos e fotos, ouvir música, acessar vários documentos, aceder a notificações e por aí vai. Isso tem como efeito dilapidar a nossa atenção e produz em nós, como resultado da neuroplasticidade, a incapacidade de prestar atenção;
b) Os textos online são mais pobres: os textos online são mais pobres linguisticamente, e isso porque as pessoas já não conseguem mais prestar atenção e ler do início ao fim; com isso, os sites são obrigados a encurtarem seus textos e a facilitarem ao máximo a linguagem para se adaptarem à capacidade diminuída de atenção dos leitores. Além disso, diversas pesquisas mostram que as pessoas não leem quando estão online: elas escaneiam o texto, ficando apenas alguns segundos na página de um site. Isso tem como resultado prejudicar a nossa linguagem;
c) A internet e os dispositivos eletrônicos produzem uma overdose de informações: os livros impressos, ao apresentarem uma informação de cada vez e ao convidarem à leitura integral do documento, têm o poder de nos tornar pessoas mais cultas. Já a internet e os dispositivos eletrônicos por meio dos quais a acessamos, ao apresentarem muitas informações no mesmo aparelho, promove uma overdose de informações; dessa forma, como não prestamos atenção e não consumimos as informações do início ao fim, a internet nos torna mais burros.
Assim, ao utilizarmos a internet, nós nos tornamos desatentos, ineloquentes e incultos, como resultado da neuroplasticidade. Nós já nascemos assim? Não! A internet é que nos tornou assim.
Os meios não são inóquos
Se o meio é a mensagem, é importante ter cautela antes de abraçar novas tecnologias, principalmente as intelectuais, por não sabermos ao certo quais serão os efeitos que elas provocarão nas pessoas e na sociedade. Desse modo, quais são os efeitos provocados pelo ChatGPT, por exemplo? Como ele faz tudo para nós, o resultado disso será o atrofiamento das nossas capacidades cognitivas, e isso é muito sério pois, quando nos acostumarmos com esse enfraquecimento e o ChatGPT desaparecer, seremos deixados aleijados, despojados de nossas capacidades criativas.
E quais serão os efeitos provocados pelo Apple Watch e pelos óculos de realidade virtual? Se tomarmos como parâmetro os efeitos provocados pela internet, podemos supor que tais efeitos não serão bons.
Saiba mais
Quer saber mais? Então leia estes livros:
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Fala sobre as tecnologias intelectuais, a neuroplasticidade, os benefícios dos livros impressos e os malefícios da internet |
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Fala, entre outras coisas, sobre as tecnologias intelectuais do alfabeto e do livro e seus efeitos neurofisiológicos |
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Fala sobre a neuroplasticidade |
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Diz que a internet provoca o atrofiamento do córtex cerebral e prejudica a linguagem |
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| Explica por que "o meio é a mensagem" e traz os efeitos provocados por diversas tecnologias |


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