A regra das 10 mil horas aplicada à leitura
Para se tornar um leitor proficiente, seu filho precisará de cerca de 10 mil horas de leitura. Isso acontece porque, segundo a regra das 10 mil horas, popularizada no livro Fora de Série: Outliers, do jornalista britânico Malcolm Gladwell, a excelência em qualquer coisa só acontece com milhares de horas de prática, e com a leitura não poderia ser diferente.
Para você ter uma ideia, existem 5 níveis de leitura, correspondentes a 5 tipos de leitores, indo do mais básico ao mais avançado:
1. Leitor emergente;
2. Leitor iniciante;
3. Leitor decodicador;
4. Leitor fluente;
5. Leitor competente.
Segundo a neurocientista americana Maryanne Wolf, o nível mais alto de leitura, que é o de leitor competente, leva anos para ser alcançado, envolvendo uma longa jornada que começa com condições favoráveis na fase de leitor emergente e termina com muitas e muitas horas de leitura na adolescência.
Isso quer dizer que o que irá determinar se o seu filho será ou não um leitor competente é se ele ouviu muitas histórias na fase do leitor emergente, que vai do nascimento até os 6 anos de idade, e se ele passou a sua adolescência lendo por prazer, nas horas vagas.
Em Proust and the Squid: the Story and Science of the Reading Brain, Wolf diz que a quantidade de vezes em que uma criança ouviu histórias em seus primeiros 5 anos de vida será decisiva para seu sucesso ou fracasso futuro em leitura. Isso porque a leitura em voz alta contribui para o desenvolvimento do gênio linguístico da criança. O gênio linguístico é formado por um conjunto de fatores ligados à oralidade que, mais tarde, serão mobilizados no aprendizado da leitura.
E se, de acordo com a regra das 10 mil horas, a excelência em qualquer coisa só vem com milhares de horas de prática, isso significa que a excelência na leitura só irá acontecer com milhares de horas dedicadas à leitura. E a melhor época para se alcançar essa quantidade de horas é na adolescência, quando os jovens têm tempo livre para dar e vender.
O leitor competente
Mas, o que, exatamente, caracteriza o leitor competente? Segundo Wolf, o leitor competente é aquele cujo cérebro alcançou o mais alto grau em suas capacidades inatas de representação, automaticidade e associação.
Isso significa que o cérebro do leitor competente é um cérebro transformado, com milhares de representações de informações visuais, auditivas e semânticas, dentre outras, sendo capaz de associá-las e recuperá-las em questão de segundos. Com isso, sobra mais tempo para o leitor se debruçar sobre o significado do texto e ser transformado por ele.
Assim, o leitor competente é aquele que consegue entender o que lê, é capaz de julgar a veracidade e a qualidade do texto, de emitir uma opinião sobre ele, de ler nas suas entrelinhas e de relacioná-lo com outros textos, chegando ao insight.
Analfabetismo funcional
Acontece que boa parte das pessoas estaciona nos 4 primeiros níveis de leitura, nunca chegando a serem leitoras competentes. Quando isso ocorre, observa-se o fenômeno do analfabetismo funcional, que é quando a pessoa não entende direito o que lê.
O analfabetismo funcional pode se manifestar de forma mais grave, como no caso do "semianalfabetismo", quando a pessoa consegue vocalizar o que lê, mas não entende direito o significado, ou de formas mais sutis, como quando um professor ou médico confere ao texto não o significado que ele realmente tem, e sim o significado que entendeu, o qual pode não condizer com a realidade.
Para evitar o analfabetismo funcional, primeiramente é importante os pais saberem que há 5 níveis de leitura, e que seus filhos precisam alcançar o último nível, que é o de leitor competente. Não serve estacionar nos 4 primeiros níveis. E isso porque o poder da leitura de promover ganhos de linguagem, memória, conhecimento e percepção só é plenamente manifestado quando os textos são realmente entendidos e absorvidos, e isso só tem como acontecer em todo o seu potencial no último nível de leitura.
A importância da fase do leitor emergente
No entanto, é importante também os pais saberem que o aprendizado da leitura, e a qualidade de leitor que os seus filhos serão no futuro, é ditada, em grande parte, por fatores ambientais, positivos ou negativos, que ocorrem no primeiro nível de leitura, que é a fase do leitor emergente, quando a criança ainda nem pensa em aprender a ler.
A leitura em voz alta constitui um fator ambiental positivo, contribuindo para o desenvolvimento do gênio linguístico da criança, numa época em que isso deve, necessariamente, acontecer, que é durante o período crítico do desenvolvimento da linguagem, que começa no nascimento e termina entre os 8 anos e os 14 anos de idade.
Já o uso de telas na fase do leitor emergente constitui um fator ambiental negativo, prejudicando o desenvolvimento do gênio linguístico numa época crucial para isso, que é durante o período crítico do desenvolvimento linguístico. Em O Cérebro que se Transforma: como a Neurociência pode Curar as Pessoas, o psiquiatra canadense Norman Doidge diz que, quando se fecha o período crítico, os padrões linguísticos existentes, ricos ou pobres, são cristalizados, dando a tônica de toda a linguagem da criança, para sempre.
Assim, se o seu filho não ouviu muitas histórias e utilizou telas na fase do leitor emergente e tem dificuldades de leitura, não é porque ele é burro, e sim porque as bases da leitura não foram bem estabelecidas em seus anos iniciais. O seu fracasso em leitura se deve a fatores ambientais negativos ocorridos em sua primeira infância e que fogem completamente de seu controle.
Seu filho precisa ser um adolescente leitor
Por outro lado, se é lendo que o seu filho alcancará o último nível de leitura, e se ele precisa de milhares de horas para isso, mais especificamente 10 mil, o uso de telas na adolescência pode impedir que os jovens alcancem as 10 mil horas de leitura necessárias para se tornarem leitores competentes ou fora de série, os outliers da leitura. E isso porque as telas são altamente viciantes e absorventes, roubando o tempo necessário para a formação de leitores competentes.
Se o seu filho não for um leitor na adolescência, dificilmente ele conseguirá, na vida adulta, alocar as 10 mil horas de leitura necessárias para alcançar o nível mais alto de leitura, devido aos afazeres inerentes ao mundo dos adultos. E se ele não conseguir completar sua cota de 10 mil horas de leitura, o cenário descortinado será o do analfabetismo funcional, em maior ou menor grau.
Portanto, troque o celular dos seus filhos por livros. Proteja-os na infância e na adolescência, garantindo que eles possuam os fatores ambientais positivos que favoreçam o surgimento de um leitor competente.
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